ANPD e LGPD: como decisões recentes orientam empresas

Por Parceria Jurídica

29 de dezembro de 2025

A atuação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados consolidou uma nova etapa da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais no Brasil, marcada menos por debates teóricos e mais por interpretações práticas. À medida que fiscalizações avançam e decisões administrativas são publicadas, empresas passaram a contar com parâmetros mais concretos sobre como a legislação é aplicada no cotidiano.

Esse movimento tem relevância jurídica e estratégica. As orientações da ANPD não se limitam à imposição de sanções, mas funcionam como guias interpretativos que ajudam a esclarecer conceitos abertos da lei, como bases legais, proporcionalidade e responsabilidade dos agentes de tratamento. Para organizações de diferentes portes, essas decisões influenciam diretamente políticas internas e modelos de negócio.

Do ponto de vista jurídico, observa-se uma aproximação entre a LGPD e a prática regulatória. Temas como legítimo interesse, direitos dos titulares e dever de transparência deixam de ser apenas previsões normativas e passam a ser analisados à luz de casos concretos, criando um corpo interpretativo que orienta condutas futuras.

Compreender esse cenário tornou-se essencial para empresas que buscam reduzir riscos e alinhar-se às expectativas da autoridade. A leitura atenta das decisões recentes permite antecipar tendências regulatórias e ajustar práticas antes que se tornem objeto de questionamento formal.

 

Fiscalizações e interpretação prática da LGPD

A LGPD ganhou contornos mais definidos a partir das fiscalizações conduzidas pela ANPD, que passaram a revelar como os princípios legais são avaliados na prática. Em vez de uma aplicação meramente literal, a autoridade tem demonstrado atenção ao contexto, à finalidade do tratamento e ao impacto sobre os titulares.

Essas fiscalizações evidenciam que a conformidade não se resume à existência de documentos formais. Políticas genéricas ou desconectadas da realidade operacional tendem a ser vistas como insuficientes, especialmente quando não refletem o tratamento efetivo dos dados.

Outro ponto recorrente é a análise de proporcionalidade. A ANPD tem sinalizado que a coleta excessiva, mesmo quando amparada por alguma base legal, pode ser questionada se não houver relação clara com a finalidade declarada.

Esse entendimento reforça a necessidade de abordagem prática e contextualizada da lei, em que empresas precisam demonstrar coerência entre discurso, documentação e operação cotidiana.

 

Bases legais e governança de dados nas decisões

As decisões recentes destacam a importância de uma governança de dados estruturada para sustentar a escolha das bases legais utilizadas no tratamento. A simples indicação de consentimento ou legítimo interesse, sem critérios claros, tem se mostrado insuficiente.

No caso do legítimo interesse, a ANPD tem enfatizado a necessidade de avaliações documentadas que demonstrem equilíbrio entre os interesses do controlador e os direitos do titular. Essa análise, quando inexistente ou superficial, fragiliza a posição da empresa em eventuais processos administrativos.

A governança aparece, assim, como elemento probatório. Mapas de dados, registros de operações e políticas internas bem definidas facilitam a demonstração de conformidade e reduzem margens de interpretação desfavorável.

Esse cenário indica que a escolha da base legal não é decisão isolada, mas parte de um sistema de governança que precisa ser consistente, atualizado e alinhado à realidade do tratamento realizado.

 

O papel do encarregado à luz da ANPD

A atuação do encarregado pelo tratamento de dados tem sido objeto de atenção nas orientações da ANPD. Mais do que uma figura formal, espera-se que esse profissional exerça funções efetivas de comunicação, orientação e supervisão.

Decisões recentes indicam que a ausência de autonomia ou de acesso adequado à alta administração pode comprometer a efetividade do papel do encarregado. Quando esse profissional não participa das decisões estratégicas relacionadas a dados, a conformidade tende a se fragilizar.

A autoridade também tem valorizado a clareza na designação e divulgação do encarregado, facilitando o contato por titulares e pela própria ANPD. Informações incompletas ou desatualizadas são vistas como falhas de transparência.

Esse entendimento reforça que o encarregado não deve ser tratado como requisito simbólico, mas como elemento central da estrutura de conformidade e de diálogo regulatório.

 

Direitos dos titulares e o enfoque na privacidade

As decisões administrativas recentes demonstram uma preocupação crescente com a efetividade dos direitos dos titulares, em especial no que se refere à privacidade. Não basta reconhecer direitos em documentos; é necessário viabilizar seu exercício de forma acessível e eficiente.

A ANPD tem observado prazos de resposta, clareza das comunicações e adequação das informações fornecidas aos titulares. Respostas genéricas ou incompletas tendem a ser interpretadas como descumprimento das obrigações legais.

Outro ponto relevante é a consistência entre canais. Empresas que oferecem múltiplos meios de atendimento precisam garantir que todos estejam alinhados quanto a procedimentos e informações, evitando respostas divergentes.

Esse enfoque reforça a centralidade da privacidade como direito fundamental, exigindo das organizações não apenas conformidade formal, mas respeito prático à autonomia informacional do titular.

 

Segurança da informação como critério regulatório

A segurança da informação tem aparecido de forma recorrente como critério de avaliação nas decisões da ANPD, especialmente em casos envolvendo incidentes ou vulnerabilidades. A autoridade avalia se as medidas adotadas são compatíveis com a natureza dos dados tratados e os riscos envolvidos.

Não se exige, necessariamente, tecnologia de ponta em todos os casos, mas sim coerência entre risco e proteção. Falhas básicas, como ausência de controles de acesso ou de políticas mínimas, tendem a ser vistas de forma mais severa.

As decisões também indicam que a resposta a incidentes é tão relevante quanto a prevenção. Comunicação adequada, mitigação tempestiva e cooperação com a autoridade influenciam a avaliação regulatória.

Esse entendimento reforça que a segurança da informação é parte integrante da conformidade jurídica, exigindo integração entre áreas técnicas e jurídicas dentro das organizações.

 

Tendências regulatórias e orientação para empresas

A leitura conjunta das decisões e fiscalizações recentes permite identificar tendências regulatórias que orientam o comportamento empresarial. Há um movimento claro em direção à valorização da efetividade, em detrimento de soluções meramente formais.

Conceitos abertos da lei vêm sendo preenchidos por interpretações que privilegiam transparência, proporcionalidade e responsabilidade demonstrável. Empresas que antecipam essas expectativas tendem a reduzir riscos e a se posicionar melhor perante a autoridade.

Do ponto de vista jurídico, acompanhar essas decisões torna-se estratégia preventiva. Ajustes realizados com base em entendimentos já consolidados costumam ser menos onerosos do que correções impostas por processos sancionatórios.

Assim, a atuação da ANPD não apenas fiscaliza, mas orienta. Ao observar suas decisões, empresas conseguem alinhar práticas, fortalecer a conformidade e construir relações mais previsíveis com o ambiente regulatório de proteção de dados.

 

Leia também: